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CRÔNICAS BELENENSES - LIVRARIA DO SEU DUDU, TESOURO DA JUVENTUDE

  • 16 de mai. de 2017
  • 4 min de leitura

LIVRARIA DO SEU DUDU, TESOURO DA JUVENTUDE Seu EDUARDO FAILAICHE vendia livros usados, a preço módico e negociável. Um paraíso para amantes de livros, de ler, estudar e tinham pouquinho poder aquisitivo, por isso o lugar se chamava LIVRARIA ECONÔMICA. Ficava ali na Campos Sales, duas portas antigas e o seu Dudu sumido entre papéis por todos os lados. Não se viam as paredes, pois tudo era prateleiras com coleções de livros, revistas, almanaques, jornais e outros similares. Uma bancada enorme coberta de pilhas de livros e pacotes amarrados com barbante. Embaixo desse móvel, outras pilhas de volumes e volumes e obras completas ou um tanto desfalcada de clássicos nacionais e estrangeiros. Essa bancada reduzia ainda mais o espaço que já era pequeno. Muito pequeno, mas, para os visitantes costumeiros, a livraria do seu DUDU parecia não ter fim. Ficávamos ali um dia inteiro garimpando preciosidades. O tempo passava, e não dávamos conta de conhecer nem uma pequenina parte daquele acervo de livros usados. Não era um sebo qualquer. Seu DUDU, bastante zeloso com suas mercadorias, catalogava cada produto de acordo com a sua importância. Quando não podíamos pagar tudo o que escolhíamos, seu DUDU nos concedia reserva por até uma semana. Este prazo se prorrogava se não aparecesse uma outra pessoa interessada. Se tínhamos pressa, era só deixar com ele o nome dos artigos pretendidos e ele se encarregava de encontrá-los. Seu DUDU entendia do que vendia. Tratava com especial cuidado e até mesmo com devotado carinho de cada obra. Como eram usadas, quase todas continham anotações e o nome do ex-dono, carimbado ou assinado. Isso, de acordo com o peso da assinatura, valorizava ainda mais a peça em questão. E seu DUDU, muito experiente e ladino, discorria uma série de observações a respeito daquilo por que estávamos dispostos a pagar. As encomendas reservadas eram embrulhadas no capricho e, no papel, anotados o nome do comprador, o conteúdo adquirido e o devido valor. Os olhinhos de seu DUDU brilhavam por trás dos óculos de grossas lentes e aro preto, quando chegava alguém interessado em algo que ele tinha, conhecia e sabia tratar-se de preciosidade. Dava um sorriso largo e depois de fazer um sinal com as mãos, ia em silêncio e misterioso atrás do tesouro. Parecia que ele ficava satisfeito de vender para quem de fato amava os livros. A recepção de início tinha um tom grave, cordial, de singela serventia, porém, conforme íamos percorrendo a passos miúdos e com os olhos pregados nos títulos dos livros, lendo uma frase aqui, folheando um volume, acolá, seu DUDU que atento nos observava, de repente, de acordo lá com os seus critérios, desvelava-se a nos ajudar. Ele revirava tudo até encontrar o que o freguês procurava. Sua presteza era sempre a mesma, não importando, estivéssemos atrás de um ou dez livros. Livros usados, sim, mas todos em perfeita condição de serem oferecidos à sua clientela. Se os livros lhe chegassem com a capa desgastada ou sem capa, seu DUDU os encadernava. Não havia bagunça; tudo apresentava harmonia. A letra dele era de tabelião, inclinada para a direita, elegante e bonita de se ver. O cheiro do lugar só poderia ser de papel muito velho, mas, ali, naquele santuário, não se encontravam umidade, mofo nem traça. Tudo tão bem agasalhado que dava pena ver seu DUDU desarrumar sua linda biblioteca, no afã de contemplar a cativa clientela. Depois de nos atender ele logo começava a arrumar tudo o que ficara em desalinho. Seu DUDU era a Livraria Econômica, pois imprimia a ela muito mais que o seu bonito trabalho. Ele dava ânimo, espírito, voz e caráter àquele pequenino grande lugar. Coisas tão estáticas e velhas respiravam e pulsavam naquele abençoado nicho da Campos Sales. Quando eu tinha doze anos, meu pai recebeu em casa um vendedor de livros. O vendedor falava, falava e meu pai apenas ouvia. Aquela situação me atraiu e me imiscuí sob os olhos de repreensão. Lá estava ela, capa dura azul marinho, detalhes dourados nas bordas e, na parte frontal, “TESOURO DA JUVENTUDE”. Dezoito volumes, páginas com ilustrações e uma multiplicidade de conteúdos científicos, literários, didáticos e muito mais. De imediato, o esperto vendedor entregou-me um tomo e deixou que eu o folheasse. Nervoso, evitando olhar para meu pai, fui logo virando as páginas macias e lustrosas com um cheiro agradável de papel novinho em folha. Eu queria muito aqueles livros para mim. Já os tinha visto em outras casas enfeitando sala, inacessíveis, grudados uns nos outros, aprisionados em uma estante muito alta com vidraças. Agora eles estavam ali e eu virara página, virava página, cada vez mais nervoso sem conseguir parar, sem conseguir falar. Encontrava-me em um outro plano de forma que não ouvia o que o vendedor e meu pai conversavam. Desse dia em diante eu passei a ter diversão garantida. Minha curiosidade era irrefreável, mas terminei os meus estudos no Ginásio “Paes de Carvalho” e ainda não havia lido tudo o que o “TESOURO DA JUVENTUDE” tinha a me oferecer. Apertos financeiros levaram meu pai a vender meus companheiros de tantas leituras que me mostravam a vida e o mundo por meio de palavras e ilustrações. Após algum tempo, na Livraria do seu DUDU, reencontro o meu “TESOURO DA JUVENTUDE”. Eu o reconheci de imediato, pois em todos os volumes, minha mãe havia prendido um marcador de página vermelho com as minhas iniciais. Fiquei tanto tempo a olhar e a folhear aqueles volumes que seu DUDU, supondo que eu quisesse comprá-los, adiantou-se, “São maravilhosos. Têm bastante uso, mas, olhe, estão conservados”. Tive vontade de resgatá-los, mas minhas economias eram poucas e a minha urgência era outra. Agora, eu queria Balzac, Eça, Flaubert e Machado. Agora, temos o Google e nele cabem todos os livros do mundo. Se vivo estivesse, seu Dudu iria se expandir à sua peculiar maneira e “on-line”, pois ele não se limitava. Da sua livraria de livros usados ele divisava outros tesouros, outros horizontes.


 
 
 

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