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AO MEU PESSOAL DO FACEBOOK

  • 16 de mai. de 2017
  • 5 min de leitura

2 e 43 da madrugada do dia 14 de maio de 2017. Terminei de ajeitar as plantas, preparei o meu banho e, antes mesmo de ir à ducha, porque havia deixado o note e o ar condicionado ligados, resolvi dar início a este texto cujo assunto é a minha justificativa ao pessoal do Facebook do porquê de eu ter me deletado. Não sei se isso interessa a alguém. Não importa. O que importa é a minha consciência de que eu deva me justificar. Para tanto, deixei sentar a poeira, amadureci o pensamento, crivei conteúdos e eis-me aqui, de peito aberto, cara limpa, sangue nas veias e cheia de vontade de me expor. Diferente do que preconiza Zigmunt Bauman, em sua belíssima Modernidade Líquida, eu penso que a vida virtual (que há muito já é real) não é tão líquida assim. E quanto mais a virtualidade, a vida “on-line”, torna-se emaranhada a tudo o que possa parecer contrário a ela, mais a liquidez se solidifica. Não é a quantidade, o volume de pessoas conectadas que determina o feitio das relações nas redes sociais, mas, sim, insisto, o caráter dessas pessoas. Há uma multidão daqueles que talvez se enquadrem no que Umberto Eco apelidou de imbecis. Nesse caso, não há dúvida, a liquidez se estabelece e, numa velocidade absurda, avoluma-se e tudo se torna volátil, tudo se pulveriza. No entanto, sempre haverá resíduos suficientes para compor em igual velocidade uma concretude e a Modernidade Líquida de Bauman não vai para o espaço, apenas ela passa a coexistir cada vez mais estreitamente com a recente concretude que ela própria originou. Há um certo exagero na infeliz observação de Umberto Eco. Digo até um certo desespero “intelectualoide” “chapa branca”, ou seja, dos que comandam os Campos, Social, Acadêmico, Político, Jornalístico, e os demais Campos, diante da tecnologia que chega e lança toda sorte de desafio. Se todos os que se melindram com a velocidade expositiva da Internet, com a multidão de seus usuários e com a certeza de que a Internet nasceu para todos, sem discriminação, segurassem a sua onda de temor e ressentimentos para também se tornarem internautas, redes sociais, como o Facebook, já estariam mais bem resolvidas. Não sugiro criarem um comando na Internet. Se tentarem isso, estejamos certos, não conseguirão. Também não sugiro tornarem-se imbecis. Na Internet todos são mandantes. Quem se deixar levar, aí, sim, eis um imbecil. Penso apenas que há condições de todos conviverem na virtualidade, impondo-se com o que tem. Excetuando crianças e adolescentes, as redes sociais não moldam as pessoas. Influências sempre existirão, mas quem, fora da circunstância “on-line”, é cafajeste, continuará cafajeste como internauta. Adultos não são moldados; adultos moldam-se ou se deixam moldar o que é ainda pior que se moldar por sua própria conta. Segundo Bauman é fácil terminar um relacionamento virtual, pois não se precisa olhar nos olhos, não se tem a preocupação de se desculpar. No entender de Bauman, basta deletar quem não queremos mais como “amigo” e pronto. Os 400 “amigos” de um internauta nunca seriam os amigos de Bauman. Por que não? Porque para o nosso mestre sociólogo não haveria a mínima possibilidade de ele fazer contatos de amizade na Internet. Preconceito. No Campo Acadêmico também existe a possibilidade de mandantes e comandados, cafajestes, “mafiosos” e rudes. Há truculências em todos os setores da vida. E, como a Internet e as redes sociais são uma imensurável vitrine da espécie humana, maior que a literatura, o teatro, o cinema e a televisão, tudo o que nelas se mostra, em frações mínimas de tempo, fermenta-se e se expande de forma incontrolável. Dá medo, mas não tem teoria que possa brecar esse fenômeno. As teorias explicam e nos ajudam a entender melhor os acontecimentos tecnológicos e seus efeitos, nada além disso. Acabou. Não há volta para os detentores da Cultura. O mesmo já está ocorrendo com a Política, (nesse particular, divirto-me, mais do que nos outros Campos, “os cara” tão agitado no formigueiro, inventando manhas e manobras, fazendo de tudo para escaparem bem lisinho, mas, em vão; a Net é mais, a Net é nóis”, mano), Medicina, Educação e até mesmo com as Religiões. Ninguém mais conseguirá deter o poder alcançado pelas massas, indistintamente, que é o poder de DIZER e de AGIR. A despeito de idiossincrasias, “habitus” e peculiaridades de grupos distintos, a Internet e as redes sociais põem todos no mesmo saco ou, se preferirem, na mesma nave. Quem não se adaptar, quem não se ajustar, não há dúvida, pode continuar sobrevivendo, mas nunca será um partícipe do mundo que segue. Com isso não quero dizer que tenhamos que ser apressados. A tecnologia é veloz. Quem tem pressa é falto de disciplina. Nisso Bauman tem toda a razão. A pressa frenética com que a quase total multidão de internautas navega é indigesta. O comando das redes sociais propicia, impulsiona, fustiga, mas isso não quer dizer que tenhamos que correr alucinados a fim de postar fotos, textos, mensagens, notícias, instantes de vida íntima ou pública a granel. Velocidade das redes sociais não implica termos de ser apressados. Se somos apressados é porque somos indisciplinados. E esta indisciplina já existia antes mesmo de todo o avanço tecnológico. Mas, paciência, vamos nos preparando, a passos curtos e quase que “na marra”, se quisermos acompanhar a contento as pernadas "high-tech". A extraordinária Modernidade Líquida de Bauman já se solidificou e eu sou apenas um pequenino exemplo dessa realidade. Por isso estou aqui escrevendo esta justificativa do porquê de eu ter me deletado do Facebook. Não estou sendo moldada. Estou moldando-me, à minha maneira e como penso que deva ser. Tudo isso em consideração a todas aquelas pessoas que, conscientemente ou mecanicamente, agregaram-se à minha fugaz presença, aparentemente fluida, líquida, mas concreta, nessa rede social de extensão do tamanho do mundo e além deste. Deletei-me do Facebook porque segui a regra popular “Os incomodados é que se mudem”. Isso não quer dizer que não haja probabilidade do meu retorno ao Facebook. Cabe somente a mim tal decisão. Talvez eu esteja a fim de me preparar melhor. Talvez eu esteja analisando mais a fundo a proposta da rede e as possibilidades de desenvoltura da mesma, para, a partir daí, usufruir mais à vontade da conexão. De uma coisa, até agora, estou certa de que, porque conheço minha natureza e meu molde, qualquer participação minha no Facebook será assim, via TEXTO. Um abraço virtual a todos e até mais. (Sentiu o meu abraço? Como é virtual, parece fluido, líquido, passageiro como um éter, mas, porque encerra a mais franca intenção de cordialidade e respeito, o meu abraço se solidifica e ficará na pele de todos vocês, como bela tatuagem que só você mesmo determinará se a desfaz). Walkyria das Mercês


 
 
 

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